
Lembram-se da “Geração à Rasca”? Pois bem decidi resgatar este tema pois marcou a minha fase de transição da universidade para o mercado de trabalho.
A Manifestação que ocorreu em março de 2011 intitulada “Geração à rasca” foi dos maiores protestos cívicos sem intervenção sindical, nem política que ocorreu em Portugal, na sua história mais recente. Os organizadores tinham como objetivo chamar a atenção para problemas laborais que a maioria dos jovens estavam a passar, resultantes da crise económica e social instalada em Portugal.
Nessa altura, o desemprego jovem era cerca de 28%, entre os 15 e os 24 anos. O salário mínimo era de 485eur e o médio situava-se entre os 784eur e os 816eur. Os contratos a termo e recibos verdes eram modalidades aceites e instaladas no mercado de trabalho para a contratação jovem.
Para um jovem qualificado, acabado de sair da universidade, era difícil, nessa altura, criar alguma perspetiva positiva de futuro em Portugal, com um bom emprego e um bom salário.
No mês seguinte à manifestação ocorreu o pedido de ajuda financeira internacional, e entrou no nosso país a chamada Troika para pôr “ordem na casa”. Mas não é nisto que me quero focar.
Os anos que se seguiram todos sabemos que foram de austeridade e que para além dos jovens, empresários e famílias também foram afetados com a crise económica. Mas hoje, olhando para trás será que essa geração de jovens, da qual eu também fazia parte, que se intitulou como geração à rasca foi de facto uma geração perdida? Bem, na minha humilde opinião eu diria que não. Fomos a geração que se “fez à vida”. Entre 2011 e 2015 a emigração portuguesa atingiu valores superiores a cem mil saídas por cada ano, sendo das vagas de emigração a mais qualificada da democracia portuguesa. Hoje, a maioria dos que emigraram não regressaram a Portugal e ocupam cargos de direção, de gestão em países por toda a Europa e não só. Os que por cá ficaram, “desenrascaram-se”, adaptaram-se à realidade, investindo em formação, dando continuidade a mestrados, e até doutoramentos. O chamado “emprego para a vida” nunca existiu para esta geração então, mudar várias vezes de emprego era fácil e adaptável, trabalhando até em áreas completamente diferentes da sua formação. Diria que os que optaram por nunca emigrar mostraram que com resiliência é possível continuar a acreditar e deste modo, desenvolveram competências que atualmente são bastante valorizadas nas empresas.
A geração que se considerava à rasca em 2011, sem perspetivas de futuro, hoje, quinze anos depois, está melhor do que alguma vez pensava naquela altura. A geração à rasca “ganhou” com o facto de se confrontar com uma crise que a obrigou a sair da zona de conforto.
No final quem perdeu, não fomos nós, mas talvez Portugal tenha perdido a maioria do talento e dos quadros mais qualificados àquela altura. Será que Portugal hoje estaria melhor? Teríamos melhores níveis de produtividade se tivéssemos tido a oportunidade de ficar e fazer parte de políticas de crescimento económico? Isto são tudo perguntas que deveriam sempre estar na cabeça dos nossos políticos e governantes.
Cada um que decide ingressar na política e governar um país devia ter em mente que, cada decisão tomada tem consequências diretas num país e na vida de todos. Governar não pode ser sobre ceder a ideologias ou caprichos de um ou outro deputado. Governar pode condenar uma geração inteira e consequentemente o futuro de um país. Se ao menos eles fossem responsabilizados por isso… como diria alguém “vale a pena pensar nisso”.

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