Sobre livros que nos marcam

—

Ler sempre fez parte da minha vida. Há uns tempos ouvi alguém dizer que, um estudo revelou que o interesse pela leitura, nas crianças/adolescentes, estava relacionado com os exemplos e hábitos de leitura dos progenitores e que as famílias com maior rendimento liam mais livros. Ora eu venho contrariar a moda, pois venho de uma família pobre e como a minha mãe trabalhava das sete da manhã às nove da noite não tinha tempo nem disponibilidade mental para ter hábitos de leitura. Mas a minha mãe (um dia escrevo sobre ela) sempre nos presenteou com livros em todas as fases da minha vida. Lembro-me de me ir buscar ao colégio e, no caminho a pé até casa, passava no quiosque para comprar mais um livro infantil com as histórias de todos os tempos, acompanhadas pela sua cassete em que poderia folhear o livro, enquanto ouvia a história no rádio. Mais tarde tornou-se assinante do Circulo de leitores. Para quem não sabe eram vendedores de livros porta a porta. Isso permitiu-me ter acesso a enciclopédias, de todos os temas, coleções de livros sobre, os maiores, rios, desertos, mares, oceanos do mundo e estudar as suas espécies. Também foi através do Circulo de Leitores que pedi à minha mãe para me oferecer o livro que marcou a minha adolescência. Não. Não foi o “diário de Anne Frank” nem a “A lua de Joana”. Foi livro com o título “Deus veio ao Afeganistão e chorou” e este foi recomendado pela minha professora de Português do 9º ano. Ainda hoje me lembro dela. Tinha um cabelo loiro comprido, e apresentava-se sempre bonita com um batom vermelho nos lábios.

Foi o primeiro livro que li sobre temas da vida real. Marcou-me porque conta a história de uma mulher Afegã cujo nome dela em português significava Doce Flor. A história contada acompanha a sua vida desde a infância, marcada por anos de guerra e violência. Shirin-Gol, seu nome, queria estudar e ser livre, mas acabou por ser entregue a um casamento forçado para pagar uma dívida. Lutou pela liberdade vivendo uma vida em fuga. O livro marcou-me, naquela fase da minha vida, pois percebi que eu era uma privilegiada por ter nascido num país livre e europeu. Era privilegiada pois podia estudar e escolher ser o que eu quisesse. Lembro-me de ter alturas em que me custava muito ler os relatos da autora do livro, pois eram bastante duros.

Porque quis partilhar isto atualmente? Porque vinte e quatro anos se passaram, desde que li este livro e infelizmente no Afeganistão, continuamos a ouvir relatos contra a dignidade da Mulher. Aprendemos na escola que com o passar dos anos a Humanidade evolui, mas na realidade, no que se refere ao lugar que as mulheres ocupam no Mundo, estamos piores. Cresci a ouvir histórias de atrocidades contra os direitos das mulheres, em países longe do meu. Hoje vejo isso a acontecer na porta ao lado. No aumento dos números de violência doméstica que, cada vez mais, acabam em morte. A violência no namoro, miúdas cada vez mais jovens a serem mal tratadas pelos ser pares. A propaganda misógina cada vez mais crescente, nas redes sociais entre tantas coisas que vamos assistindo, na tentativa de diminuição dos direitos das mulheres.

Fui criada por uma mulher que me ensinou que com trabalho e dedicação conseguimos tudo o que quisermos, e foi assim que conquistei o meu lugar, na minha vida pessoal e profissional. Hoje sou mãe e quero passar os mesmos valores à minha filha, mas tenho muito medo do rumo que a sociedade atual está a levar. É urgente debater estes temas e não deixar que direitos conquistados ao longo de décadas de democracia sejam agora postos em causa.

Deixe uma Resposta

● About Me

Chamo-me Juliana, sou licenciada em Economia e desde muito nova tenho o gosto pela escrita. Assim nasce o fim de contas como a concretização de um hobby antigo, que ao longo da vida foi ficando na gaveta.